Já ouviu falar do Trem da Morte? Não confunda com a famosa Estrada da Morte que também fica na Bolívia. O trem da morte é um trem que faz o trajeto de Puerto Quijarro, na divisa com Mato Grosso do Sul, até a cidade de Santa Cruz de La Sierra, conhecida como uma das cidades mais desenvolvidas da Bolívia.

Antes da nossa aventura pelo Pantanal chegamos até Corumbá, na fronteira com a Bolívia, porque tivemos que abastecer o carro. A ideia inicial era apenas passar por lá e começar a viagem de volta pra casa, mas começamos a pensar que talvez dar um pulo na Bolívia não seria uma má ideia. Vem nessa aventura com a gente!

Por que o Trem da Morte?

O Trem de La Muerte não é nada perigoso como a famosa estrada de mesmo nome, ele é chamado assim porque antigamente era o meio transporte de doentes e moribundos que iam do interior para as cidades maiores e muitos acabavam morrendo pelo caminho.

Hoje ele faz o mesmo trajeto pelo interior da Bolívia, mas transportando passageiros e carga em uma velocidade bem menor do que os ônibus que também fazem esse caminho.

Mas então porque pegar o trem, você deve estar se perguntando, é mais barato? É sim, mas não muito, quando fizemos o trajeto os ônibus custavam uma média de 80 bolivianos o trem ficou em torno de 70 bolivianos*, uma economia bem pequena, considerando que o ônibus faz o mesmo trajeto em bem menos tempo.

*preços de setembro/2017. Confira os valores atualizados aqui.

Nós nos interessamos pelo trem por conta da experiência em si, o trajeto é famoso por ser rota de muitos mochileiros que passam pela Bolívia a caminho de Machu Pichu no Peru, e como infelizmente no Brasil o transporte ferroviário não é nada explorado, achamos que seria muito legal conhecer como isso funciona na Bolívia, além de poder ver um pouquinho do interior do país.

Existem 3 opções de trem para esse trajeto, saindo em horários e dias diferentes, e cada um com um nível de conforto e preço equivalente, são eles:

No domingo, quando chegamos em Corumbá após a nossa viagem pelo Estrada Parque do Pantanal, a opção disponível era o Expresso Oriente e foi ele que conhecemos.

Compramos as passagens com 2 dias de antecedência, isso é importante pois o trem é bem disputado e os lugares podem acabar bem rápido. Compramos o ingresso na própria bilheteria da estação de Puerto Quijaro e todo o processo foi bem tranquilo, mas caso você busque comprar a passagem em cima da hora e em alta temporada pode correr o risco de ficar na mão dos cambistas que são bem comuns na região, há diversos relatos de viajantes que não conseguem comprar o trem direto da bilheteria e acabam pagando um valor mais alto comprando de cambista. O planejamento aqui é essencial e todo o cuidado é pouco já que além de cambistas pode haver também golpistas vendendo passagens falsas, fique atento.

Atravessando a Fronteira

A estação de Puerto Quijarro fica a algumas ruas da fronteira com o Brasil, falando em fronteira, pegamos uma fila surreal para passar pela aduana, programe-se, pois, atravessar fronteira é uma caixinha de surpresa, pode demorar uma vida ou ser super-rápido.

Na primeira vez que atravessamos para a Bolívia não passamos pelo controle da fronteira já que fomos somente comprar as passagens do trem, mas no dia da viagem fomos cedo e preparados para pegar a fila. Como o controle não é muito rígido, muitas pessoas acabam passando sem validar os documentos, não faça isso caso você vá realmente adentrar paran além da cidade fronteira, porque dentro do país os policiais costumam parar os turistas, aconteceu com a gente, e caso você não possua os documentos pode se envolver em um problemão. Além disso é fácil passar pelo controle de fronteira, você só precisa do Passaporte ou RG (não aceitam CNH) e do certificado internacional de vacinação, que não pediram pra gente o que foi ótimo, pois, apesar de termos tomado a vacina não estávamos com o nosso e arriscamos mesmo assim, deu certo mas corremos o risco. Há alguns casos de que os policiais de fronteira acabam pedindo propina “induzindo pagamentos” para deixar quem não está com a documentação em dia passar.

Fronteira atravessada, tomamos um açaí, compramos umas comidinhas e rumamos para o trem. Fomos bem recebidos pelos funcionários e pelo maquinista que nos deixou tirar algumas fotos como essas aqui:

Bolivia: Trem da morte

Embarcando no trem fantasma da morte

Entrando no trem descobrimos que os assentos, pelo menos nessa categoria intermediária, são bem confortáveis, mais até do que algumas poltronas de avião, só que com o sacolejo dos trilhos.

Logo quando deu pra perceber que realmente estávamos na Bolívia. A TV do vagão exibia clipes, ao que tudo indica, de uma cantora conhecida na Bolívia, a música foi legal no começo porque deu a sensação de imersão cultural, mas infelizmente foi assim a viagem toda o que se tornou bem cansativo, pelo menos houve pausa nas musiquinhas durante a noite.

O trem possui 4 vagões de carga e 4 de passageiros, incluindo um “vagão restaurante “que não servia quase nada (somente bolo e refrigerante). Quer dizer, a viagem começou dessa forma, no meio da noite a gente foi andando pelos corredores e percebemos que em alguma das paradas pelo caminho o trem “cresceu” ganhando mais alguns vagões de passageiros, louco né?

Falando em paradas, o trem realiza muitas nas diversas cidadezinhas pelo caminho e em todas elas diversas pessoas entram vendendo marmitinhas, comidinhas e tamarindo, muito tamarindo que é uma fruta típica com um cheiro estranho e cuñape, um bolinho que lembra um pouco o nosso pão de queijo, feito com farinha de queijo e mandioca. Os ambulantes com certeza oferecem mais opções do que o vagão restaurante do trem, mas nós não nos ligamos em comprar algo com eles, o que foi um erro já que não havíamos levado comida o suficiente e acabamos ficando com fome no restante do trajeto.

A viagem seguiu assim por boa parte do tempo, o trem devagarinho, música típica tocando e o pessoal da comida entrando nas paradas, somente mais no fim da noite é que as coisas ficaram mais calmas, quer dizer, mais ou menos.

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Chuva na madrugada, trem parado e “probleminha”

Logo após o bonito pôr do sol, a luz do vagão ficou baixa e os passageiros se prepararam para dormir, deixando um clima mais calmo no trem, em compensação, lá fora o céu ficava cada vez mais agitado. Uma tempestade com muitos raios começou dando um tom sombrio a paisagem rural vista da janela, esse cenário unido ao nome Trem da Morte e o fato de vários vagões terem “surgido” durante a viagem já dariam um bom roteiro de filme de terror, mas coisas mais estranhas ainda estavam por vir muahahaha*
*risada maléfica, rs.

Durante a noite em meio a essa tempestade de raios o trem parou no meio do nada e por muito tempo. Para vocês terem uma noção, a viagem estava prevista para durar 16 horas, mas durou quase 21 horas! Ficamos quase um dia inteirinho dentro do trem. Achávamos que o atraso tinha sido por causa da chuva, mas logo de manhã ao perguntarmos a um dos funcionários do trem qual era o motivo do atraso, ele nos informa que houve um pequeno “probleminha” – nas palavras dele – e que um vagão havia DESCARRILHADO!!! Ainda segundo ele, não havia sido grave e tudo já estava resolvido. O cara disse isso como se fosse algo corriqueiro, e como realmente estava tudo bem a gente acreditou que não foi nada grave mesmo.

Brincadeiras e descarrilamentos a parte, sentimos bastante segurança no trem e o percurso foi bem legal. É interessante ver a Bolívia nua e crua, passamos por diversos vilarejos pequenos e pobres e vimos uma parte mais real do país, coisa que geralmente turista acaba não vendo mais viajante conhece bem.

Chegamos em Santa Cruz de La Sierra e lembramos que apesar de uma viagem longa o trem era só o inicio da nossa jornada até Samaipata, conhecida como o Machu Pichu da Bolívia, mas isso é história pra outro post…


Dicas Traveleiros